Há uns vinte anos, após ser exposto a dados que documentavam o financiamento que fundações bilionárias internacionais destinavam a movimentos de esquerda no Brasil, tento me debruçar sobre a compreensão da natureza deste fenômeno aparentemente paradoxal. Por que, afinal, grandes fortunas ou mesmo governos de grandes potências financiariam movimentos tidos como revolucionários ou de esquerda, tanto em outros países quanto em seus próprios quintais?
A pergunta não é de resposta fácil e, na política e na história, frequentemente descobrimos que muitas ações humanas carecem de explicações muito racionais, pois os agentes históricos são, eles próprios, profundamente caóticos e falhos, não havendo, na maior parte das vezes, alguma conspiração maquiavélica oculta controlando meticulosamente os destinos da história.
Mas, depois de pelo menos duas décadas me debruçando sobre o fenômeno, acredito que algumas explicações simples podem ser dadas. A primeira é que estes movimentos de esquerda são utilizados como mecanismos de subversão em países-alvo, com a finalidade de enfraquecer a coesão interna da sociedade atacada. As divulgações recentes envolvendo os financiamentos da USAID demonstram isso em escala internacional. Porém, essa explicação não explica por que vemos o mesmo fenômeno em escala local.
Para responder a este outro problema, imagino que a resposta seja semelhante, mas um pouco diferente. A explicação está em uma tática bastante simples, antiga e até mesmo bem pueril de hegemonia política: controlar e liderar a própria oposição ao sistema.
É natural que, em toda sociedade, por mais justa e rica que seja, existam insatisfação, frustração e revolta entre o seu povo, nas mais diversas camadas, e que, portanto, sempre exista um germe latente de revolução que pode crescer e estourar a qualquer momento. Em termos puramente políticos, o pior meio de se lidar com este problema, do ponto de vista dos donos do poder, é eliminar as insatisfações sociais, porque o ser humano é insaciável por natureza; esse germe latente de revolução é uma lei social irrevogável, incrustada na natureza ontológica do ser humano. Não convém também entrar em embate constante contra essa tendência revolucionária que pode surgir mais dia, menos dia, nem tentar argumentar, oprimir ou controlar de qualquer modo externo que seja.
A grande sacada dos engenheiros sociais que servem muito bem às nossas elites foi muito mais simples: em vez de entrarmos em confronto com esse germe revolucionário que um dia ainda poderá nos destruir, por que, então, nós mesmos não fomentamos, incentivamos e lideramos estes movimentos, a fim de dar vazão a este sentimento difuso e latente de insatisfação, extravasá-lo e direcioná-lo a causas fúteis, inócuas e que não ameacem nosso sistema de poder? Como por exemplo, ao invés de se rebelarem contra nosso sistema de poder, podemos direcioná-los a se rebelar contra o seu próprio sexo! Seria como pegar em leão feroz e fazê-lo correr atrás do próprio rabo, assim ele não nos ataca e extravasa sua energia. Melhor ainda! Além de tudo isso, podemos direcioná-lo a causas que, muito pelo contrário, ajudem a fortalecer ainda mais o nosso próprio sistema de poder. E assim foi feito e está sendo feito até os dias de hoje.
